Moçambique à Prova em 2026: Entre a Retórica da Esperança e o Custo Real da Mudança

 


Moçambique entra em 2026 diante de um dos momentos mais desafiantes da sua história recente. Daniel Francisco Chapo assume a liderança do país num contexto adverso, marcado por fragilidades estruturais profundas que exigem decisões corajosas, e não apenas discursos de esperança ou apelos recorrentes à paciência da população.

A política nacional continua refém de um modelo centralizado, pouco transparente e resistente à reforma. A dívida pública superior a 14 mil milhões de dólares é apenas a face visível de um problema mais grave: anos de decisões políticas mal escrutinadas, prioridades distorcidas e captura do Estado por interesses partidários e económicos. O resultado é um país com margem fiscal reduzida e incapaz de responder, de forma eficaz, às necessidades básicas da maioria dos cidadãos.

Energia e clima expõem fragilidades do modelo

No sector energético, 2025 deixou sinais preocupantes. A redução significativa da produção na Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), causada pela fraca pluviosidade, teve impactos que ultrapassam o plano técnico. Menos energia significou menos receitas para o Estado, maior pressão sobre o abastecimento interno e perda de competitividade no mercado regional.

Num país que aposta na energia como pilar estratégico do desenvolvimento, a vulnerabilidade da HCB expôs a ausência de políticas eficazes de mitigação dos riscos climáticos e a falta de diversificação da matriz energética. A dependência excessiva de um único activo revelou-se um erro estratégico com custos elevados.

Mozal: símbolo de um ambiente económico falhado

Paralelamente, a saída da Mozal — ou a ameaça concreta da sua descontinuidade — representou um duro golpe para a economia nacional em 2025. A perda de uma das maiores unidades industriais do país afectou diretamente o emprego, as exportações e a confiança dos investidores.

Mais do que um problema empresarial, a Mozal tornou-se um símbolo do fracasso do ambiente económico e regulatório, marcado por instabilidade, custos elevados de energia e incapacidade do Estado em garantir previsibilidade e segurança aos grandes investidores.

2026: o primeiro grande teste político

O ano de 2026 será, por isso, o primeiro grande teste político da nova liderança. Não bastará gerir heranças pesadas nem atribuir responsabilidades exclusivamente ao passado. O país exige sinais claros de ruptura com práticas que normalizaram a impunidade, enfraqueceram as instituições e afastaram os cidadãos da vida pública.

Sem reformas estruturais profundas, a promessa de mudança corre o risco de se revelar meramente cosmética.

Diálogo inclusivo ou conveniência política?

O chamado Diálogo Político Inclusivo continua a ilustrar esta contradição. Apresentado como instrumento de pacificação nacional, o processo permanece incompleto e controverso. A exclusão de Venâncio Mondlane, figura com expressão política real e apoio popular evidente, levanta sérias dúvidas sobre a legitimidade do diálogo.

Um processo que escolhe interlocutores por conveniência política não é inclusivo — é selectivo, dispendioso e politicamente estéril.

Sinais positivos, mas ainda insuficientes

Apesar do cenário sombrio, 2025 não foi um ano totalmente perdido. Houve alguns sinais positivos que merecem reconhecimento: relativa estabilidade macroeconómica, esforços iniciais de reorganização das finanças públicas e maior pressão da sociedade civil e da comunicação social por transparência e responsabilização.

Estes avanços, embora tímidos, demonstram que existe espaço para mudança — desde que haja vontade política real.

A questão central

À medida que 2026 se aproxima, a questão central deixa de ser quem governa e passa a ser como se governa. Combater a corrupção com actos concretos, garantir a independência efectiva da justiça, respeitar o pluralismo político e promover uma inclusão política genuína não são concessões de poder, mas obrigações democráticas.

Moçambique não precisa de um novo ciclo de promessas adiadas. Precisa de coragem política para romper com os vícios do poder e enfrentar interesses instalados.

A pergunta que permanece é simples e incontornável:
estará a nova liderança disposta a pagar o preço político da mudança ou 2026 confirmará, mais uma vez, que o país continua a girar em círculos?

(INTEGRITY)

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